Santa Juliana

Sou um velho supersticioso. Quando novo, balançar a cabeça para mim era apenas um bolero febril com o vento. Agora, tenho balançado a cabeça para concordar com todos, mesmo se discordo. Vocês já devem saber que velho hoje em dia não sabe de nada, ao contrário de antigamente, que velho sabia de tudo e emanava respeito por onde passava. Velho passava e dava a benção que o novo pedia. O jovem de hoje é ainda mais cruel que o jovem de ontem, pois tem tempo de sobra, acessa o Google e não a Barsa, não sabe o que é um tanque para lavar meias sujas de saibro, tampouco um vasto campo para capinar e regar calos.

Deram-me como aposentado por invalidez. Motivo: alienação mental. Disseram que meu mental estava deteriorado, que teima não tinha jeito, nem com palmada de mãe ou arruda de benzedeira. Ou seja: eu não poderia exercer mais a minha função. Com dezenove bocas para criar – quatro filhos, esposa, sogra, dois pares de cunhada e três de afilhados, além das bocas compulsórias e rotatórias que me visitam, não poderia me dar por vencido. Aceitei a pecha de inválido, porém pedi uma boquinha no antigo emprego, sem carteira assinada mesmo, e assumi o cargo de caixeiro viajante. Resolvi vender de tudo que vocês possam imaginar – de pratos de prata a ilusões. Fiquei quatro anos neste bico até que resolveram me promover por falta de qualificação técnica dos novos funcionários contratados. Disseram que eu podia ficar lá dentro do meu antigo escritório, pelo tempo que eu quisesse, batendo umas bolinhas com a nova e a antiga moçada, para tentar ensinar algo. Logo eu, o aposentado. Não sei ao certo se queriam que eu atestasse a qualidade dos paredões ou se queriam mesmo me estuporar de vez física e mentalmente. Bufão que não sou, tratei de me aprumar. Resolvi mudar velhos hábitos, apesar de velho.

Vez e outra, quando a temporada me inspira, me permito o vinho e tomo a taça. O cheiro, o gosto em erguê-la e beijá-la, mais uma vez, me inebriam e me devolvem o sentido da contenda. O segredo da minha resistência e do meu êxito com o passar dos anos está em um novo ritual, ritual que faço Tim-Tim por Tim-Tim, sem deixar escapar nada. Sempre que resolvo dar uma passadinha no escritório para atestar como a vida segue, me levanto às 5h17, como quatro ovos e meio cozidos, caminho na rua ao redor do posto de saúde por 49 minutos e vou para o jardim do centro da cidade jogar xadrez com os outros velhos da minha idade.

Bem, e é lá no jardim, sentado de frente para o meu oponente que a avisto. A minha primeira e eterna namorada. Linda, linda! De imediato, ela finge não me ver, tampouco faz menção de me querer. Insisto no profundo do flertar e desejo. E, eis, que ela se deixa. Suspira de um modo que o colo nina todas as minhas esperanças, me acalenta e me arrouba todo o corpo. Vagarosamente passa a mão direita nos cabelos compridos, liso e cheio, me devolve o olhar e sorri sutilmente, simples e arrebatadora na alma. Ah, Juliana! Que saudades dos seus braços que me afogam na vitória.

 

“Se hoje és minha festa

E o teu sereno é o que me leva

Suas mãos, nas minhas mãos

Se no fracasso de quem te ama

Óh Vitória, Juliana

Nunca me deixe o seu não”.

 

(Sobre a vitória de Roger Federer no AO 2018 e sua conquista do 20º GS)

Colunista: LuA Linhares