O Retorno do Rei

O que os olhos não vêem o vizinho não sente.

Tenho um vizinho que costuma olhar para o meu gramado e desconfiar do verde. Não que eu pense que o amigo faça por mal, todavia, ele cisma em colocar muita camada de terra sob a camada de grama dele, e aí, não percebe que esconde um pouco o viço. O meu jardineiro, aos meus cuidados, tasca uma camada só de terra grossa e oito camadas de gramas, e por baixo da terra, onze camadas de concreção calcária. Não tenho segredos. Se segredos tenho, é o de acrescentar um ou outro desses ingredientes – quando miro o tempo e resolvo que não aceito me enterrarem antes do meu tempo.

Meu vizinho e eu temos uma relação um tanto quanto peculiar. De respeito acima de tudo, contudo há um resquício de desafio. De lá e de cá. Já sou velho e ele é novo, mesmo que a diferença de idade nossa seja de um pouco menos de cinco anos. Diferença que ele vez e outra esfrega no meu relógio de pulso. Como a regata da época da nossa adolescência que ele resgatou do armário para testar a minha memória. Só faltou o bermudão, porque os cabelos não voltarão mais. Sou quase quarentão, tenho esposa e quatro filhos. Ele é trintão, com namorada capa da Caras e um afilhado. E foi este afilhado que veio outro dia aqui tocar a campainha e me perturbar o jornal, tirar meu carro da vaga prioritária, como velho que sou, e assobiar meu passarinho.

O moleque tem um pouco mais de oito anos de idade mental e já foi pisando dentro da minha casa me chamando de sogrão. Minha filha Rose, não a do Titanic, recebeu o atrevido com duas raquetes na mão. Por instantes uma alegria dançando tango na minha alma inundou a sala, “vai dar duas raquetadas naquela fuça” – pensei eu. Mas Rose me expulsou da cela do cavalo com a mesma rapidez com que termino uma partida – entregou uma raquete na mão do meliante e o convidou para nossa quadra. Enquanto os dois batiam na bolinha, fiquei de supetão, com retinas bem abertas. Percebi que de Tênis o moleque sabia o básico, ao contrário do vizinho, e que a minha filha, com a inocência de quem ainda arma a saia com folhas de goiabeira, desperdiçava conhecimento. Enquanto o energúmeno inflava a bola com um determinado efeito, ela a murchava, fatiando sua esperança. Depois dava a chicotear de um lado e do outro o fazendo conhecer as cercas que dividiam todo o nosso terreno com os da vizinhança. Ao deflagrar a chegada de um placar vexatório, o tendeiro inventou umas piruetas e se arranjou um manco. Um manco mais fajuto que serpente não peçonhenta. Como cabia a mim oferecer, bom anfitrião que sou, auxílio médico, busquei as chaves do carro e nem mal ajeitei o topete, o mafarrico foi logo tentando: “deixa que meu padrinho dá um jeito. Não precisa gastar gasolina não”. Na chegada do vizinho ainda ouvi outro desaforo, corroborando com o anterior. Que o jurupari do moleque fica preocupado com meus joelhos operados, minhas costas doloridas, não quer dar trabalho, pois não posso trabalhar sempre que quero, somente quando consigo. Ah, não! Inválido não. É demais. Velho, aposentado, até vai, não posso e tampouco quero mudar a ordem da vida e do meu sossego. Mas inválido é a tonga da mironga dos vossos kabuletês!

Fiz uma ligação para o escritório e perguntei se podia fazer hora extra por poucos dias, menos que sete. Faço bico, depois de aposentado, na mesma Cia que o vizinho ainda trabalha fichado, embora tenhamos que cumprir metas pessoais em filiais diferentes. O chefe ficou ensandecido, pois tinha uma vaguinha numa filial dos Países Baixos, onde eu não pisava há anos. Pois bem. Nem precisei trabalhar muito. Até colocaram um mocinho no último dia de extra para me testar. Mocinho que cismaram me lembrar nos golpes, um agrado ao rapaz, só pode, pois nem misericórdia nos golpes ele tem. Mas doutrinando, oprimindo e castigando fiz minha parte. Agora o vizinho que aguente olhar para o quadro do funcionário do mês, o número 1, e ver o meu rosto estampado – lembrando o Século de Ouro dos Países Baixos.

Moral da história: Pimenta nos olhos do vizinho é só um tempero.

(Sobre o retorno de Roger Federer ao posto de número 1 do mundo e sua vitória no ATP 500 de Roterdã).

 

 

 

 

 

 

 

Colunista: Lua Linhares