Briga de Galos

A temporada de relva se esvaiu – para a imensurável felicidade de uns e para a minha profunda tristeza. Meu sonho é que ela durasse um jogo de cinco sets de John Isner em Wimbledon. Que suscitasse um “para sempre”. Para sempre mesmo parece durar o domínio de Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic nos torneios de Grand Slam. Torneio que separa os galos dos meninos. E foi como um Galo Doido para tomar o terreiro para si, que Djokovic levantou o seu décimo terceiro título de G.S., e o quarto no torneio mais tradicional e romântico do Tênis. É tetra!, é tetra!, diria o Galvão. O sérvio está de volta. 

O general grego Temístocles sustentava a crença de que os galos não lutavam por seu país, por seus filhos, por poder, por vaidade ou por fama; os galos, segundo ele, lutavam apenas por um propósito: não se render ao adversário. Parece que o eslovaco Vajda ajudou o sérvio a reaver o espírito de galo brigador em quadra. Afinal, o Tênis é uma guerra, consigo mesmo e com o outro. No Tênis, não há espaço para abraçador de árvores, entretanto para comedores de capim, de poeira e asfalto. Assim como os galos, o tenista feito bica insistentemente, e incansavelmente, na cabeça do oponente, ponto a ponto. E aberta a guarda, golpeia igualmente sacando seus esporões. 

Dois jogos me chamaram a atenção nesta última edição de Wimbledon.
O primeiro, o confronto entre Djokovic e Nadal por uma das semifinais. Partida que teve gosto e cara de uma final bem disputada. Valeu cada petúnia cuidada e zelada daquele jardim. Valia uma taça deveras poderosa para todo esportista – a confiança. Pudemos ser brindados com uma genuína Briga de Galos, de rinha, como o esporte e seus fãs merecem ganhar. Em quadra, muita exuberância técnica, tática, mental, física. E, mais uma vez, uma partida sendo decidida no quinto set onde não há tie break, nos revelou o quanto o fator emocional deste esporte canta alto, desde a madrugada, como um galo impondo sua autoridade. Novak Djokovic cresceu de asas abertas e brilhantes nos pontos decisivos, defendendo os break points como se negando a uma rendição. Rafael Nadal fez o mesmo até não poder mais. Como diria o querido Paulo Cleto, há a “hora da onça beber água”. Nesta hora, o esturro do bicho se mantém imponente como um pai em pé diante do filho. É assim desde 2011, quando o sérvio impõe ao espanhol lutas “a duras penas”. Em partidas decididas nos mínimos detalhes ao som do terreno emocional, Nadal ainda não consegue evitar o coup de grâce, o golpe de misericórdia vindo do outro galo.

Nadal foi a doce surpresa do torneio, pois já no confronto anterior, com Juan Martin del Potro, escancarou um Tênis agressivo e à altura da grama sagrada: saque e voleio, voleio, curtas desconcertantes, slices, patadas de touro buscando derrubar o toureiro e não ser montado como um cavalo de carruagem da Cinderela. Quem ainda sustenta a ideia, sentado no sofá, de que o jogo do espanhol se resume a uma nota só, causando sonolência e preguiça, deveria assistir ao menos os dois últimos jogos dele na relva dos velhinhos. 
Djokovic foi a doce surpresa da temporada. Ele que, segundo próximos, cogitou largar o Tênis em Março. Ah, as águas de março. Até a temporada do saibro, Nole parecia um corpo sem alma. Não digo isso pelas dificuldades técnicas que certamente viriam, após tanto tempo sem jogar em alto nível, em decorrência da cirurgia no cotovelo. Faltava o espírito brigador. Não falta mais. Contra Rafael Nadal não largou mão da tática enlaçada à confiança. Usou e abusou de bolas bem anguladas, de devoluções que atordoam, de ataques precisos. Adje!

Quem deve estar com uma certa dor de cotovelo é o suíço Roger Federer. Tenho um amigo que diz adorar discordar de mim, ainda enquanto digito. Ele chamava a atenção de todos, em uma roda de amigos, para o fato do suíço estar desde a primeira rodada plantado na linha de fundo da quadra. Nos questionava sobre os possíveis motivos. Apareceram várias explicações, de apurar os golpes da base a se preparar para pegar na final um tenista mais sólido naquele terreno. Rodada a rodada Roger Federer se tornava a zebra mais favorita a disputar o título de Wimbledon 2018, já que, os croatas mais perigosos sumiram do seu caminho – pareceram estar mais focados na Copa do Mundo de Futebol.

O segundo jogo a chamar a minha atenção foi o disputado entre Roger Federer e Kevin Anderson – popularmente conhecido como Kevin Fedalrson. Kevin declarou recentemente que o seu melhor nível é tão bom quanto o melhor nível de Federer e Nadal. Ficou a pecha, o suíço respeitou. Azar o dele, pois o sul-africano só precisou jogar em seu melhor nível no quinto set, quando a confiança de Roger ainda mirava a do match point desperdiçado no terceiro set. Federer teve a bola do jogo na cara da rede, à altura do peito, na velocidade de um coala, e falhou. Kevin já ajeitava o boné e enxugava a mão para o cumprimento. Não bastasse o match point perdido, teve o saque perdido sem que seu oponente precisasse se empenhar abundantemente. Anderson nunca havia tirado um set sequer de Roger. E foi tirar logo três, de virada, na grama. Piso em que Federer é Rei. Não foi a primeira vez no ano que Federer desperdiçou chances como esta e perdeu o jogo. O que me causa um pouco de indignação, longe de me tirar o sono, é ver um tenista da qualidade e talento de Federer não buscar alternativas para garantir uma vitória com menos flerte à derrota. Não consigo aceitar um tenista como Federer, ainda mais na grama, perder para um adversário plantado na linha de fundo, como o adversário quer, com 2,03 metros de altura, recebendo praticamente o tempo todo bola na mão e na altura da cintura. Federer fez vir à memória meu professor ajeitando a bola para eu conseguir devolver mais uma. A mim, resta a esperança de que Roger Federer tenha acompanhado as duas últimas partidas de Rafael Nadal e de Novak Djokovic em Wimbledon, quem diria, a fim de resgatar aquilo que o fez um incontestável Galo de Briga em 2017. 

No apagar das luzes de Julho começam os principais torneios disputados em quadra dura. Enquanto os galos mais jovens parecem respeitar uma hierarquia nos embates de Grand Slans com os galos mais velhos, nos demais torneios, costumam arrastar suas asas e se engraçar com a taça. Será uma temporada interessante de se acompanhar e torcer por brigas acirradas, decididas no pormenor. 
Que os velhos Galos de Briga não se enganem, não se distraiam, não se arrependam de nada. Qualquer dia desses os jovens galos se sentirão mais confiantes em impor seus domínios no território. Quem abaixar a crista corre o risco de ciscar só um prato de comida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Colunista: LuA Linhares
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