Boi Voador não Pode

O amor nunca acaba – devo desmentir o Paulo Mendes Campos. Quando jovem, o amor nos carrega em seu colo. Ao passar dos anos, ainda jovem, ele nos senta em seu colo. É assim, e indo. Com os pais, com o filho, com o consorte. Amor não acorda sempre de manhãzinha bocejando primavera. Amor não dorme sempre de noitinha protegendo os olhos com o outono. Amor, às vezes, nos toma o agasalho na geada do inverno. Outras vezes, em pleno verão, nos unta no forno do ladinho do bolo de fubá. O cheiro é desmedido.

Talvez, Rafael Nadal saiba disso. Há mais de uma década ele tem transformado o “sacudir a poeira dos pés” numa missão inabalável. Julgo, numa saga obstinada como orientou o Redentor aos seus discípulos. Nadal fez da terra a casa, do bastão a raquete, abandonou a túnica que disfarça o comodismo e permitiu-se as sandálias – as que nos lembram dos pés no chão e do pó que, ora e outra, se deixa e se carrega pelo caminho.

Desde que aportou para o mundo do Tênis sem melindres com bermudão e regata, exacerbando todo seu vigor físico e mental, Rafael Nadal esfregou na cara dos de dentro e fora da quadra que o atleta genuíno é, acima de tudo, uma cruz repleta de fé ou, em outras palavras, uma entrega absoluta do espírito àquilo que se crê como verdadeiro. Ele é uma cruz em quadra. Pesada para uns, impossível de ser carregada por legiões. Nunca vi um adversário do espanhol entrar em quadra com semblante de quem dormiu a noite toda e sonhou com as ninfas. Nem o sérvio, Novak Djokovic, quando ostentando uma cruz no peito, e a beijando, jogou um Tênis ímpar e impecável – físico, técnico, tático e mental – o único modo de fazer o espanhol perder a insígnia e padecer de uma derrota acachapante. Mas, ao menos por enquanto, Rafael pode prosseguir flutuando com o arcanjo que carrega o seu nome, pois Djokovic tem preferido abraçar árvores sob o domínio de outro espanhol, Pepe Imaz, um guru que se denomina instrutor de Tênis. De Tênis clausura, só pode. Na verdade, entra e sai ano, os adversários do espanhol parecem viver um pesadelo na noite anterior e durante o confronto, com direito a entrarem de pamonha na quadrilha – plena de bandeirolas, fogueira, pau-de-sebo e balões de São João.

Não posso garantir que eu teria tido uma lua cheia de sonhos se eu fosse o Roberto Carballes, que enfrentou hoje Rafael Nadal. Ao longo dos anos, não bastasse a excelência física, mental e tática, o espanhol aprimorou seu arsenal técnico. Do saque à rede; longe de ser uma referência nesses quesitos, mas tão, tão, tantão mais longe e impossível de ser um panga. O adversário de Nadal vive um dilema – se devolve a bola de qualquer jeito, leva um safanão de jeito; se encarna o Tênis Porcentagem no que diz respeito a se posicionar para devolver a bola sempre na bissetriz do ângulo formado pelas prováveis trajetórias da bola (permitindo pouco ângulo para o espanhol arriscar uma winner ou executar um contra-ataque – onde mais predomina sua linha de conforto), corre o risco de mesmo evitando correr desnecessariamente, se cansar, chegar atrasado e entregar o quentão, pois Nadal é perito neste assunto e vai amar trocar bolinhas em ritmo de bolero do lero-lero. Roberto – não o Rei, sucumbiu em cadência de aquecimento levada no banho-maria pelo experiente Nadal.

O próximo adversário de Rafael precisará surpreender fora da cartilha, com lances típicos de um gari carnavalesco que dança e varre a linha, se quiser ter alguma chance. Porque prendê-lo numa corda bamba exige o máximo de qualquer esportista. Duvido que jogando o básico, algum tenista consiga pegar o Rei de contrapé. Ao menos na gira do saibro, Rafael Nadal não parece ter adversários que possam incomodá-lo, tampouco alcançá-lo. Nem em Roland Garros 2099 se lá estiver! – sem morder a taça, como diria um amigo, para não perder a dentadura. Amarrar o Boi, só os que se entregam, no mínimo, de coração na partida. Algo que Nadal nunca deixou de fazer em cada bola, em cada lance. Entra e sai geração só se vê Boi Voador. Pode, ou não pode? Para mim, pode.


Quem foi, quem foi que falou do boi voador
Manda prender esse boi
Seja esse boi o que for
Quem foi, quem foi que falou do boi voador
Manda prender esse boi
Seja esse boi o que for

O boi ainda dá bode
Qual é a do boi que revoa
Boi realmente não pode voar à toa
É fora, é fora, é fora
É fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boi
Proibido voar
É fora, é fora, é fora
É fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boi
Proibido voar